Sobre amamentação, GVA, histórias e comemorações

Legenda #pracegover Cena em close total do peito, com Gabriel recém nascido mamando na penumbra, vestindo um macacão listrado azul, luvas brancas listradas um corro com carinha de cachorro.

Penso que a amamentação não é um dever, mas deveria ser um direito de todas as mães. A amamentação plena, exclusiva, com apoio, suporte e compreensão. A amamentação sem medos, sem culpas, sem críticas. A amamentação da forma que o binômio mãe-bebê quiser, hoje tão difícil de ocorrer sem interferências.

A maternidade e a convivência com grupos de mães me fez perceber o quanto sou privilegiada. E como é confuso perceber isso. Claro, parece melindre reclamar de algo apesar dos próprios privilégios. Não reclamo de nenhum deles, porém, por muitas vezes caí e caio na armadilha de não me dar o direito de viver minhas dificuldades pelo simples fato de me achar petulante de reclamar de qualquer coisa, afinal, tenho tanto…

Sou privilegiada, as coisas pra mim foram relativamente fáceis. No olho do furacão, é claro que muitas vezes me senti sem chão, sem saída, sem perspectiva. Mas conversando com outras mulheres, debatendo nuns grupos muito bons que conheci, pude perceber o quão sortuda eu fui e isso me fez crescer como mãe, mulher e pessoa, me permitiu conseguir ter empatia e me colocar no lugar daquelas outras mulheres com mais facilidade. E agradeço muito por este crescimento pessoal que estes grupos me possibilitaram até aqui.

Legenda #pracegover Imagem vista de cima. Eu vestindo uma saia estampada de flores verdes e azuis, fundo amarelo e detalhes em rosa, e camiseta rosa levantada para Gabriel mamar no peito. Ele veste somente uma fralda de pano azul. Amauri está do meu lado esquerdo, vestindo bermuda bege e camisa branca de malha, me abraçando enquanto acaricia a cabeça de Gabriel com a outra mão. Estamos sentados num colchão no chão, cercados de dois rolinhos beges, à direita, uma almofada bege saindo por trás de Amauri, um cursinho de pano bege quadriculado, com um laço marrom no pescoço, mais uma almofada listrada de verde e mais uma almofada verde com bolinhas brancas.

Sou privilegiada desde que nasci, mas aqui quero focar no aspecto específico da maternidade e amamentação. Pra início de tudo, engravidei, embora sem planejar, num lar estruturado, num casamento relativamente sólido, de um homem íntegro e de caráter, disposto a trabalhar pela nossa solidez e felicidade enquanto família. Noutros tempos, poderia dizer que “soube escolher”, mas hoje tenho absoluta certeza de que tudo não passou de sorte. Aquela sorte que me colocou no lugar e na hora certa, que fez com que nosso relacionamento acontecesse, nossos ritmos casassem e afinidades aflorassem. Pura sorte. Privilégio.
Embora não sem algumas questões e medos a lidar, tive uma gravidez tranquila, um apoio imensurável do meu marido, a oportunidade de buscar informações sobre o parto e encontrar pessoas boas pelo caminho, que me prepararam não só pra o nascimento do meu filho, mas para o que poderia acontecer no puerpério e na maternidade. Empoderei-me. Consegui me deslocar e encontrar vaga para parir no local que escolhi. Atendi aos critérios e o TP se desenvolveu sem intercorrências. Pari sem dificuldade, num trabalho de parto rápido e com pouca dor. Não sofri violência obstétrica. Meu filho não saiu do meu lado nem por um minuto. Não tive nenhuma interferência negativa na amamentação, ninguém naquela instituição duvidou nem por um minuto que eu pudesse amamentar meu filho.
Meu filho nasceu e veio logo pro meu colo. Pegou o peito imediatamente, com uma pega linda, boquinha aberta, lábios viradinhos pra fora, sucção eficiente. Tudo perfeito. Ajeitávamos a pega em alguns momentos, marido de olho enquanto eu cochilava sentada muitas vezes, me ajudando, me guardando, corrigindo a pega, me garantindo conforto, água, comida, um livro, celular carregado e quaisquer outras coisas que necessitasse pra conseguir amamentar e ficar bem e relaxada. Pude conhecer realidades bastante diferentes. De mães que demoraram horas pra conhecer o filho recém nascido. De mães que são imediatamente desacreditadas, cujos filhos recebem uma chuquinha com leite artificial nas primeiras horas de vida, ao invés de elas receberem a orientação necessária pra saberem que podem amamentar. De mães que passam dias no hospital desacompanhadas, cortadas, violentadas, desassistidas. Mães de primeira viagem, ou de segunda, ou de terceira, cujo cuidado tão importante neste momento de fragilidade é negado e, no lugar de acolhimento, recebem uma sentença: você não vai dar conta de amamentar seu filho, você não vai conseguir, você não pode, seu leite não faz bem, seu leite não é suficiente, seu leite não sustenta. Essas mães chegam em casa frágeis e deparam-se com uma realidade pesada e exaustiva, de abandono, de sobrecarga, de falta de informação e acolhimento, de julgamento, de repreensão, de inadequação.
Sim, tive muita sorte. Tive sorte de, ainda nos primeiros dias do puerpério, poder me dar ao luxo de ter acesso à internet, a grupos de apoio e a informação de qualidade. Foi por ter acesso a tudo isso que deixei de lado a chupeta e a mamadeira, que havia comprado com a convicção de quem pensa que estará incólume aos riscos dos bicos artificiais. Sim, meu filho teve uma pega perfeita. Sim, meu filho mamou e ganhou peso lindamente. Sim, meu filho não me exigia muito além de colo, muito colo, e atenção. E peito. Eu nem sei se conseguiria seguir convicta se quaisquer destas variáveis tivessem saído do controle. Teria me rendido? Teria complementado de uma forma segura? Não sei. Fato é que meu filho queria leite e eu tinha leite. Meu filho queria colo e eu tinha disponibilidade de colo. Meu filho queria sugar pra se confortar e eu tinha disponibilidade de dar o peito. Meu filho aprendeu a sugar os dedos e eu fui respeitada na decisão de não oferecer a chupeta (“por enquanto”, eu dizia).
Confesso que encontrei dentro de mim uma força que nem sei de onde veio pra conseguir fazer e manter as escolhas que fiz. Não posso expressar o quanto me afligiu tentar não me abalar com os conselhos inoportunos (“seu filho mama muito, seu leite é fraco”, “dá a chupeta, que é mais fácil de tirar que o dedo”, “dá um engrossante, vai dormir a noite toda”, “dá água, tá muito calor”, “coloca pra dormir no quarto dele, vai viciar se ficar na sua cama”, “está chorando, é fome” e por aí afora). Nesta jornada, aprendi a me conectar com meu corpo e com meu filho de tal forma, que me aflige o risco que corri de sucumbir e seguir um caminho diferente. Eu não seria feliz seguindo um caminho diferente. Respeito quem segue, respeito quem faz outras escolhas, acredito, de verdade, que existe felicidade em escolhas diferentes. Mas eu não seria tão feliz.
É lindo, também, perceber que todo mundo pode feliz à sua forma, que cada escolha representa perdas e ganhos e que cada realidade apresenta um caminho diferente. E tudo bem. Há muito tempo, ouvi de uma amiga o seguinte: “hoje, sou feliz com a amamentação em 70% do tempo, mas estou farta em 30% dele”. Muitas vezes passei por momentos em que fui quase 100% infeliz com a amamentação. Felizmente estes momentos passaram, mas foram eles que me mostraram que a amamentação é algo real, orgânico, humano. Foram eles que possibilitaram uma mudança de perspectiva no relacionamento com o meu filho e na minha visão da própria amamentação. Foram eles que me ensinaram que somos dois indivíduos separados, interdependentes, mas que eventualmente serão independentes um dia. E foram estes momentos que me ensinaram que não existe maternidade plena e perfeita, mas que a maternidade é algo real e que se desenvolve dentro dos limites de respeito e crescimento mútuos. Foram estes momentos que me ensinaram que meu relacionamento com meu filho é real, é entre duas pessoas diferentes, cheias de erros e imperfeições. Somos, os dois, imperfeitos, mas estamos, os dois, construindo juntos um vínculo e uma relação real e sem idealizações. Estes momentos passam e voltam, são cíclicos como cíclica é a vida e a história. O importante é saber que eles passam e que, como diria o provérbio, “não há mal que sempre dure, nem tristeza que nunca se acabe”.

Legenda #pracegover
Estamos deitados num sofá bege, com uma manta predominantemente azul escuro com listras finas de diversas cores. Estou do lado esquerdo da foto, deitada com a cabeça sobre o braço do sofá, vestindo uma bermuda jeans escuro e uma blusa cinza levemente abaixada para expor a mama. Gabriel está mamando com um sorriso, no canto dos lábios, na minha mama esquerda, com a mão esquerda sobre a mama direita (por cima da roupa), ele veste somente uma fralda descartável e está com o tronco levemente elevado sobre sua perna direita, flexionada e apoiada no sofá.

Daqui a 9 dias, completaremos 18 meses de amamentação. Começaram (há muito) os questionamentos de “até quando”? E me dá certa aflição sequer saber esta resposta. Eu costumava ver a amamentação como algo difícil, excepcional, intangível e, depois de algum tempo, até reprovável. Sim, eu jamais pensei que chegaria tão longe. Jamais pensei que iria QUERER chegar tão longe. E hoje é algo tão natural pra mim que confesso achar estranho ter que ter a resposta a esta pergunta. Hoje eu digo “pelo menos até 2 anos, que é o que a OMS recomenda”, mas com a convicção de que não tenho convicção nesta resposta. Nestes meses, meu filho me mostrou que não tenho, nem posso ter, controle sobre tudo, pois ele é um indivíduo também, senhor de suas vontades e limitações. Jamais poderia negar pra ele o direito de ficar deitado enquanto não pudesse sentar. Jamais poderia negar pra ele o direito de engatinhar enquanto não pudesse levantar e andar. Não posso negar pra ele o direito de murmurar, apontar e gesticular enquanto não consegue falar. Não consigo negar pra ele o direito de mamar enquanto ele PRECISA mamar. Porque hoje sei que o leite materno é muito, muito além de alimento. Talvez haja um dia em que minhas limitações me obriguem a conduzir um desmame. Não posso prever. Não gostaria de prever. Não gosto, muito menos, que prevejam pra mim o fim desta história que é só nossa e que não precisa dizer respeito a ninguém.

Legenda #pracegover Montagem com fotos de 46 moderadoras do Grupo Virtual de Amamentação, no canto inferior direito, a sigla GVA escrita em letras rosas com bordas pretas.

Mas o intuito deste texto é comemorar. Há exatamente 1 ano, comecei a desenvolver um trabalho voluntário de apoio à amamentação, no Grupo Virtual de Amamentação – GVA. O GVA é um grupo de apoio online (no Facebook) que atualmente conta com mais de 150 mil membros, que todos os dias são acompanhados individualmente por uma de suas 44 moderadoras. Relutei em entrar na moderação. Não me sentia preparada. E não estava mesmo. De bagagem, somente alguns meses frequentando o grupo, tentando levar uma palavra de apoio e um pouco da minha experiência pra aquelas mães que buscavam ajuda. Veio o convite, rebati com um “mas minha experiência é parca”. Eu não sabia que isso não importava, que só importava a vontade de ajudar e estudar sobre amamentação pra difundir conhecimento, destruir mitos, espalhar apoio e sororidade.
A gente entra no GVA não por conhecimento técnico. Embora o grupo da moderação seja formado por médicas, enfermeiras, nutricionistas, biomédicas, odontólogas, fonoaudiólogas, farmacêuticas, pesquisadoras etc, o requisito para a entrada é somente ser mãe e ter disponibilidade de ajudar e estar afinado com os princípios do grupo. Somos notadas e convidadas a ajudar. Quando entramos na moderação, passamos por um período de imersão por muitos textos e material de estudo. O conteúdo reunido e produzido pelo grupo é enriquecedor. A produção de conteúdo é baseada em evidências científicas, assim como na imensa experiência do grupo no manejo da amamentação de milhares de mães. Depois deste período, passamos a moderar os tópicos, orientando sob a supervisão direta de uma moderadora mais experiente, assim como do grupo da moderação, onde discutimos casos e condutas. Este pequeno grupo de mulheres-mães estuda, conversa, está atento às evidências científicas, produz conteúdo e possui mais experiência em amamentação do que milhares de profissionais da saúde, que pouco estudam do assunto. O GVA quebra paradigmas, porque é um trabalho de mães para mães, com dedicação e responsabilidade, com interesse genuíno no assunto, com uma vivência das dificuldades da amamentação que vai muito além da vivência da grande maioria dos profissionais de saúde. Até porque amamentação não é doença, não deveria ser medicalizada, deveria ser natural e apenas fortalecida nos consultórios médicos. No GVA, sabemos que um complemento bem indicado salva vidas, mas que um mal indicado é capaz de arruinar a amamentação de alguém. E que na grande maioria das vezes, esta má indicação se dá porque não se há tempo de ouvir a mãe, a puérpera, a mulher. Porque não se há tempo de olhar o bebê, de se fazer um exame clínico decente, de se aventar as diversas possibilidades de baixo ganho de peso. Porque se ignora o que seria o comportamento normal de um recém nascido. Porque é mais fácil colocar a culpa na mãe, na mulher, em seu leite e na sua falta de capacidade de nutrir. Porque quando se descobrem os verdadeiros problemas, o bebê já está desmamado, a mãe já está insegura, por vezes destroçada, subjugada, diminuída. É institucional. É estrutural. É difícil de lutar contra.
Mas seguimos com nosso trabalho de formiguinha. Foi a ajuda de centenas de mulheres que tive o prazer de escutar, acolher, orientar e apoiar que me fizeram enxergar as diversas nuances dessa minha história. Estas muitas mulheres que não possuem o privilégio que eu tive e que me fazem grata e feliz por tê-lo tido e poder, agora, retribuir de alguma forma. É com as histórias destas mulheres que eu enriqueço a minha própria história e consigo ressignificar momentos e me fortalecer pra seguir tranquila o nosso caminho. Foi com o apoio das demais moderadoras que cresci e me livrei de muitas inseguranças. Foi com o confronto com suas realidades diferentes que também pude ressignificar o próprio trabalho do grupo e minha participação ativa nele. Foi com a oportunidade que me foi dada e quase recusada porque “não tinha tanta bagagem assim” que pude me reconstruir como mãe, como mulher e como pessoa. Eu não tenho palavras pra expressar minha gratidão e sinto que o pouco que faço jamais será suficiente pra agradecer por tudo o que tive a oportunidade de ter e viver durante toda a minha vida. Mas este pouco é o que tenho a contribuir e quero que possa se espalhar e ser suficiente pra que alguns de meus privilégios possam ser um pouquinho de cada uma daquelas mulheres e bebês.
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Grande beijo, Mari

Tudo eu

Nas últimas duas semanas, tive a companhia da minha querida Tia Suze, que havia prometido esta visita desde que descobri minha gravidez. Ela veio pra fazer companhia, pra fazer comidinha fresquinha todo dia, pra deixar meu freezer abastecido de comida, pra revezar colinhos pra Gabriel, pra me liberar pra umas saídas, enfim, pra prestar uma ajuda real tão necessária. Muito obrigada, Tia Suze!

2ea4e7_44acf202abe24ba9b89c55e4df88e92aBom, então nestas duas semanas, tive uma rotina mais leve, consegui ler um pouco e um dos livros que li foi Tudo Eu, de Elisama Santos. Senti-me extremamente acolhida por suas palavras (até porque também pari uma cotovia)…

Não lembro exatamente se Elisama ou alguma outra pessoa falou que “ser mãe é padecer num paraíso solitário”. E é. Sinto isso desde que pari e senti muito nestas semanas, por alguns motivos. Primeiro pela cobrança que sentimos em estarmos sempre felizes por sermos mãe, enquanto nosso coração e nosso corpo estão em frangalhos. Depois, porque (quase) todo mundo à nossa volta faz questão de perpetuar a ideia de que a maternidade é linda 100% do tempo. Tenho amigas com filhos de poucos meses que fazem parecer tão fácil e maravilhoso que acabo me sentindo ainda pior quando divido alguma experiência negativa. Parei de dividir minhas experiências com as pessoas mais próximas.

Senti isso com força quando publiquei meu último post, pois relatei minha experiência com o sono de Gabriel e, embora tenha feito um relato muito sincero, percebi que algumas pessoas focaram no “dormia 6h seguidas”. Sim, ele chegava a dormir 6h seguidas, mas isso nunca foi rotina e quando acontecia era motivo de muita comemoração! Percebi que quando a gente conta alguma vitória na maternidade, imediatamente é interpretado como se tudo fosse fácil. Não é fácil não, gente, é muito difícil!

Então, calhou do Marido precisar viajar esta semana, justo quando Tia Suze estaria aqui. Foi Deus que programou as coisas certinho. Ok, não tão certinho, porque calhou de Gabriel passar por um pico de crescimento AND crise dos 3 meses em plena viagem do pai. Okay, a força na peruca teve que ser redobrada!

Pra quem não é mãe (ou teve a sorte de ter um bebê-anjo), durante os picos de crescimento, o bebê requisita MUITO a mãe. Gabriel costuma passar a fazer as mamadas da madrugada a cada 1 ou 2h. Durante o dia também fica mais grudado. Alie a isso o fato de eu simplesmente não conseguir dormir durante o dia. E eu tento, viu?!

No sábado, mais ou menos às 19:30, comecei a sentir meu olho arder. Olhei no espelho, nada, deduzi o óbvio: sono. A cabeça começou a doer, fazendo companhia pro corpo que já doía inteiro e tinha dificuldade de subir as escadas. Marido eatava viajando há duas noites e por duas noites estava cuidando de um pico de crescimento sozinha. Durante o dia, Tia Suze já ajudava bastante, achei que daria conta das noites.

Obviamente, não havia dado conta das duas noites, pois nesta terceira já estava esgotada. Fiz a rotina da noite, Gabriel dormiu e liguei pra Marido. Expliquei-lhe que estava num nível de exaustão tal que ele precisaria assumir a cria por pelo menos três horas naquela madrugada, quando chegaria de viagem, pra que eu pudesse dormir. Acerto feito, virei pro lado e adormeci imediatamente.
Vinte minutos depois, Gabriel acordou chorando, fui socorrê-lo, mas o peito não adiantava, o colo não adiantava, o balanço não adiantava. Estava sofrendo do Efeito Vulcão, pois quase não dormira durante o dia. Estávamos os dois num efeito vulcão e ali, sentada em seu colchão, abraçada a ele, comecei a chorar. Copiosamente. Soluçava um choro de desespero e angústia. Será que será sempre assim? Eu não vou dar conta. Eu não estou dando conta.

Tia Suze ouviu meu choro e correu ao quarto. Arrancou Gabriel dos meus braços e ordenou que eu saísse pro meu quarto ou deitasse ali mesmo pra dormir. Fui pro meu quarto pra tentar esquecer que tinha um bebê insone ali ao lado.

Dormi profundamente. Durante a noite, mais ou menos a cada duas horas ela ou Marido (que chegou e eu nem vi) traziam Gabriel pra mamar, sempre que o ninar não resolvia mais. E assim tive uma noite de sono que, se não se pode dizer que foi boa, pode-se dizer que foi razoável, pelo menos pra recuperar a sanidade…

Hoje a tarde fui deixar Tia Suze na rodoviária e chorei ao me despedir. É muito difícil encontrar alguém que te ajude de verdade, entendendo que a situação em que nos encontramos não é culpa nossa, nem de Gabriel, nem de ninguém, simplesmente são as coisas como elas são, porque a maternidade é assim. E porque pedir ajuda é necessário e também porque receber ajuda sem pedir é reconfortante e renovador.

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