Relato de parto: nasceu e renasceu João

Em outubro de 2015, tive minha primeira e maravilhosa experiência de parir. Pari em casa de parto, 6h30 de trabalho de parto. Expulsivo curto, laceração apenas de 1º grau, embora tivesse tido puxos dirigidos (o que só me dei conta tempos depois). Pouco mais de 24h depois, parti pra casa feliz para nossa também maravilhosa lua de leite.

Exatos 2 anos depois, estava grávida novamente e, desta vez, queria repetir a experiência perfeita que tive, mas no entorno da nossa família. A melhor opção, pensamos, seria um parto domiciliar, para que nosso pequeno pudesse, se quisesse, ver a chegada do irmão; para que não precisássemos passar nem uma noite separados; para que os aninhássemos todos juntos naquele momento mágico de amor.
Tudo corria bem na gestação. Como na primeira, tudo perfeito, sem sequer enjôos, azia, nada! Nem mesmo a dor pela pressão do ciático, que me acompanhou durante toda a primeira gestação, apareceu. Passei os meses na minha rotina normal, dando conta de tudo e, agora, de um bebê de 13kg que requisitava bastante colo.
Fechamos nosso parto domiciliar, segui fazendo meu prenatal pelo convênio, para economizar nas consultas, já que o custo do parto não é baixo. A partir de 30 semanas, conforme combinado, comecei a fazer o prenatal com minha parteira, Tanila Glaeser (EO). Na primeira consulta, ela demonstrou um pouco de preocupação com meu tornozelo, operado pouco mais de 1 ano antes, devido a uma luxação talo-calcânea, com múltiplas fraturas no tálos e no 5º metatarso. A tranquilizei, já tinha marcado uma consulta com uma osteopata que, de fato, ajudou muito com as dores. Tanila é uma das mais conhecidas parteiras do movimento da humanização aqui em Salvador, mas sua fama carrega um mito de que suas parturientes, não raro, acabam passando vários dias com bolsa rota. No dia que saí da osteopata, mandei uma mensagem bem humorada: “Tani, não precisa se preocupar com o tornozelo, tá tudo certo, só precisa se preocupar com a bolsa rota”. Rimos.
Segui a vida, sem me dar conta do poder que as palavras proferidas carregam, até a madrugada de 16/06/2018. Acordei à 1h30, sentindo a calcinha úmida. Fui ao banheiro, fiz xixi e, em seguida, caiu um pouco de líquido. Cheirei, pedi pro marido cheirar, não sentimos o tal cheiro de água sanitária, pensei ser um corrimento em maior quantidade. Com o coração a mil, coloquei um absorvente e marquei meia hora no relógio, pra ver o que acontecia. Gabriel acordou neste momento e Amauri foi coloca-lo novamente a dormir. Dez minutos depois, uma quantidade imensa de líquido desceu de vez entre as pernas e não tive dúvidas, a bolsa rompeu. Liguei pra Tanila, que pediu pra eu arrumar nossa mala e ir ao hospital, ela me explicou que tudo mudara, o parto domiciliar não seria mais possível, eu estava com 33 semanas e 4 dias, precisaria ficar internada, fazer antibioticoterapia e tomar injeções de corticoide para amadurecer o pulmão do bebê, e aguardar em repouso o trabalho de parto ou, pelo protocolo, interromper a gestação com 34 semanas.
Com o coração na mão, arrumei tudo, deixamos nosso pequeno na casa da vizinha, liguei pra minha mãe vir do interior ficar com ele, e partimos pro hospital, onde ficaríamos pelos próximos 16 dias…
Como já sabíamos, fui internada, colheram amostras para descartar infecções e iniciaram atb profilático e injeções de corticoide. Nenhum exame apontou infecções, apenas o swab positivou para strepto B na vagina.
Como o contrato para o parto domiciliar estava automaticamente rescindido, Tanila nos indicou uma GO da equipe para, se quiséssemos, nos acompanhar a partir dali. Com receio do plantão (cujas taxas de cesárea, pelo meu plano, passavam dos 90%), fechamos com ela e recebemos sua visita no mesmo dia. Dra Bruna Bittencourt chegou no momento em que conversávamos com a fotógrafa, Lorena, que conhecemos também naquele dia (havíamos marcado para nos conhecermos e fecharmos naquela semana), e com quem dividíamos detalhes da nossa vida em família e nossa história como casal. Ficamos todos ali conversando, descontraídos, quando, então, passamos a ouví-la e discutir as condutas. Sabíamos que não queria uma cesárea, então a conduta seria induzir no dia que completaria 34 semanas. A indução seria feita com misoprostol por via oral, numa pequena dosagem de 2/2h. Caso chegássemos à dose máxima, tentaríamos outros métodos de indução, os quais não lembro mais a ordem sugerida. Ela também nos explicou as intervenções possíveis em caso de distócia, nos deixando seguros de que a cesárea só seria opção em caso de sofrimento fetal ou opção nossa, intraparto.
No domingo, ela nos trouxe um artigo de revisão que analisava dois estudos, comparando os desfechos entre a indução às 34 semanas e a conduta expectante até as 37 semanas, em casos de bolsa rota. Conseguimos os estudos na íntegra, e, após analisar e ponderar bastante todos os dados, vimos que não havia aumento significativo de desfechos positivos do parto e neonatais na conduta expectante, ao passo que havia um aumento de 3x no risco de corioamnionite, optamos por seguir o protocolo e os planos iniciais. Na terça pela manhã, induziríamos o parto.
Minha pressão vinha normal a gravidez inteira, porém no momento da internação, foi aferido 12×9. Dois dias depois, mais uma medição de 12×9. Fiz exames para descartar pré-eclâmpsia. No fim das contas, fui diagnosticada com hipertensão gestacional. Acredito que, por não mudar a conduta, este diagnóstico sequer me foi mencionado antes da indução.
A sensação de espera foi estranha. A ansiedade de aguardar pelo parto numa data marcada, pra mim, foi muito maior do que aquela de aguardar pelo incerto…
Na data marcada, acordei com cólicas fraquinhas, espaçadas e curtas. Lia, minha doula, chegou cedo ao hospital. Até a véspera, ela estava viajando e, ainda que tenha me enviado uma doula backup fofíssima pra eu conhecer, fiquei feliz por ter dado certo e ela ter chegado a tempo de me acompanhar. Passamos a manhã jogando conversa fora, foi ótimo ter uma doula já amiga, com amigos e interesses em comum, pra que pudéssemos fofocar bastante sobre coisas aleatórias e se desligar (um pouco) da questão que nos unia naquele momento.
Às 11h, depois de uma cardiotoco (que já vinha fazendo diariamente), tomei a primeira dose do misoprostol. Sabíamos que nas primeiras doses provavelmente não aconteceria nada, seguimos o dia normal. Com receio de acontecer como o primeiro parto, em que não consegui comer e fiquei com muita fome assim que pari, segui o dia comendo tudo e mais um pouco, em parte, também, por conta da ansiedade.
A tarde, Tanila também chegou, pois ela também acompanharia a indução e tratou de sugerir aumentar um pouco a dose do miso. Ao invés de tomar a cada 2h, passei a tomar a cada 1h (uma dose ajustada). Lá pela 4ª dose, ela sugeriu deambular pelo corredor. Lá fomos, eu e Lia, obedecer! Andamos de um lado pro outro, subimos e descemos escadas, andamos mais um pouco… Nada.
Deitei um pouco pra descansar, Dra Bruna sugeriu que eu tentasse dormir, pois podia ser que entrássemos pela madrugada e eu precisaria de energia. Meu pai estava presente e tenso. Neste momento todos haviam saído pra comer alguma coisa e ele perguntou por que não fazíamos uma cesárea pra acabar logo aquilo. Afirmei que não, tínhamos convicção de que o parto normal era a melhor opção, pra mim e pro João, que receberia a primeira vacina através da minha flora vaginal e conseguiria, através da pressão pelo canal vaginal, expelir mais líquidos do pulmão, o que lhe daria uma chance maior de nascer bem, mesmo sendo prematuro. Ele respeitou e continuou ali, acompanhando, me guardando e observando.
Deitada, voltei a sentir as cólicas fracas que tive de manhã, mas ainda espaçadas. Não consegui dormir, levantei pra comer mais um pouco, eram umas 18h e havia chegado o café. Lia disse que, embora espaçadas e fracas, as cólicas tinham ritmo, sugeriu que deambulássemos um pouco mais, após a próxima dose.
Pouco depois das 19h, voltamos aos corredores, a fotógrafa chegou neste momento para registrar tudo. Ficamos ali andando e as cólicas começaram a ficar um pouco mais fortes, me fazendo parar para aguardar passar. Não pareciam contrações, pelo menos não como as que tive no primeiro parto, então achei que tudo ainda demoraria muito pra engatar. Enquanto isso, conversávamos sobre nossos pequenos, nossa maternagem, nossos planos futuros, nossos preparativos para a chegada do irmão mais novo (Lia também está grávida)…
O espaço entre as cólicas começou a ficar mais curto, comecei a encontrar dificuldade para ficar ereta quando elas vinham, tive certeza que tudo estava começando a acontecer. Comecei a vocalizar nas contrações, a ficar irritada com o curto intervalo, a ficar com medo. Lembro que, no primeiro parto, não aturei toque, não aturei música, não aturei cheiros… De repente, com suas massagens, Lia conseguia aliviar em parte a dor. Comecei a sentir um cheiro de lavanda, que vinha do óleo que ela passava nas minhas costas, e achei gostoso. Comecei a ouvir uma música e a me concentrar nela…
Já não parecia ter intervalos entre as contrações. Acabava uma, vinha outra, fui me enchendo de raiva daquele processo, fomos pro chuveiro. A água quente, como sempre, é a maior aliada para a dor, fiquei ali por um tempo que parecia uma eternidade, mas depois fiquei sabendo que foram poucas contrações. De repente senti o círculo de fogo, desconfio que João só não nasceu ali porque a cadeira segurou, rs.
Avisei que estava sentindo ele descer, vi o corre corre pra pegar a maca, me vestiram uma camisola e deitei respirando fundo a cada contração. Meu bebê seria prematuro e uma das coisas que sabia é que, estando no hospital, cheio de protocolos, era importante que ele nascesse no Centro Obstétrico, para não deixar a neonatologia ainda mais apreensiva. Segui respirando e me concentrando para que ele não nascesse no corredor. Chegando no CO, precisava trocar de maca, aguardava um intervalo de contrações, mas eles eram muito curtos, trocar de maca ficou inviável. Até que, numa contração, não deu mais pra segurar, fiquei de 4 na maca e ele nasceu num puxo só. Nasceu inteiro cheio de vérnix, escorregou de uma vez…
Eram 21:27. Colocaram ele no meu colo, pedi pra dar o peito, mas a pediatra insistiu que ele fosse avaliado imediatamente e pediu pra clampear o cordão. Não aguardaram ele receber todo o sangue a que ele tinha direito. Ele foi avaliado, coberto, pesado, medido… Recebeu apgar 9/9, nasceu perfeito, 2.480g, 45cm, PC de 32,5cm.
A pediatra, entretanto, nos informou que o protocolo do hospital era de que todo prematuro deve ficar em UTINEO até completar 35 semanas. Meu mundo caiu ali. Em nenhuma das nossas ponderações, ao considerar a conduta expectante, imaginamos existir tal protocolo. A USG feita no internamento apontava uma estimativa de peso de 2.254g, acreditamos que, nascendo com bom peso (acima de 2kg), nascendo bem e após as 34 semanas, ele viria para alojamento conjunto. Jamais nos ocorreu pesquisar sobre isto, pra gente o alojamento conjunto era algo certo, se desse tudo certo.
Meu parto perfeito virou desespero. Pedi pra colocá-lo no peito, pedi pra ficar um pouco com ele no colo, vi que a equipe insistiu e ela permitiu que ele ficasse alguns minutos comigo e mamasse um pouco. Não lembro quanto tempo foi, mas com certeza foi muito menos que a hora dourada que tanto sonhei e sei que ele merecia. Ele mamou lindamente.
Pedimos que não pingassem o nitrato de prata, assinamos um termo de responsabilidade e o pouparam disso. Permitimos que tomasse a vitamina K. Pedi que não dessem mamadeira, nem leite artificial, ela disse que, pra isso, eu precisaria estar na UTI pra amamentar dali a 3h. E foram embora, com o pai acompanhando. No CO, reinou o silêncio, toda a equipe estarrecida e atônita, eu em prantos, não conseguia parar de chorar, esqueci que o parto não acabara ali, esqueci que precisava ainda parir minha placenta, esqueci de toda chuva de ocitocina que recebi minutos antes. Eu só conseguia chorar. Dra Bruna tentou me dar forças, me consolar, mas eu não conseguia parar de chorar. Eu pari, mas não tinha um bebê nos meus braços. Foi das piores sensações que já senti.
Alguns minutos depois, comecei a sentir os puxos, em poucas contrações, pari a placenta íntegra e continuei meu luto. Queria levantar e sair correndo atrás do meu bebê, mas estava submetida aos protocolos hospitalares. 1h de observação ainda no CO. Subi pro quarto. Precisava comer, precisava tomar banho sem desmaiar, precisava ficar em observação por 2h com medições de sinais vitais a cada meia hora. Pelas minhas contas, não daria tempo de chegar na UTI para a próxima mamada, entrei em desespero. Enquanto o lanche do hospital não vinha, comecei a comer o que tinha no quarto. Quando chegaram, comi também tudo o que me serviram. Sabia que precisava ter forças pra levantar, senão não me deixariam descer.
Consegui tomar banho sem desmaiar, Dra Bruna conseguiu convencer a enfermagem a me liberar logo após o banho e medir os sinais vitais na volta. Neste meio tempo, já haviam ligado da UTI, pois estava chegando o horário da próxima mamada, mas alguém conseguiu convencê-los de que eu desceria em instantes e disseram que aguardariam até 1h da manhã. Terminado o banho, desci correndo pra reencontrar o meu bebê. Consegui chegar a tempo, a mamadeira com 15ml de LA já estava pronta, ali ao lado. Por conta do horário, tive que ficar sozinha (a partir das 21h só permanece pai ou mãe, não os dois), ele pegou o peito e mamou. Desabei em lágrimas e comecei a cantar a última música que lembrava do trabalho de parto, “Reconhecimento”.
Não lembro quantas vezes cantei esta música nos dias seguintes, nas longas horas que passei na UTI, amamentando, acalentando e aquecendo João. Foram 12 longos dias de uma rotina puxada de UTI. Dra Bruna conseguiu me manter internada por 6 dias após o parto, fiz diversos exames para encontrar qualquer questão que justificasse minha internação por mais tempo, mas a recuperação deste pós parto seguiu perfeita, até mesmo a discreta anemia que apareceram nos últimos exames grávida, desapareceu.
Depois da alta, consegui acolhimento de uma amiga linda, Roberta, que mora a 10 minutos do hospital, onde deixamos nossas malas e íamos 1x ao dia tomar banho. Dormíamos no hospital, num quarto de descanso para os pais da UTI, que dispunha de algumas poltronas reclináveis. Não era lá muito confortável, mas dava pra descansar. Foram 12 longos dias subindo e descendo pelo hospital a cada 3h, no mínimo. Algumas noites só me permitiam 30 minutos de descanso entre as mamadas, pois logo João já chorava novamente. Ainda assim, agradeço o fato de que todas as enfermeiras e técnicas da UTI foram extremamente apoiadoras do aleitamento, me ligando em todos os momentos em que ele chorava, para que eu fosse aleitar, ao invés de tomarem o caminho mais fácil, que seria pedir uma mamadeira. Já me bati com uma técnica literalmente correndo pelos corredores atrás de mim, que não havia atendido o telefone do quarto, pois havia saído pra comer…
Depois de 12 dias de UTI, finalmente conseguimos ir pro alojamento conjunto, já foi um alívio imensurável, que nos deixou claro que tudo nesta vida é fruto de comparação. Lembro que, quando Gabriel nasceu, 24h depois eu já estava impaciente no quarto, querendo ir pra casa. Quando fomos pro quarto, com João, já fiquei em paz e achei que ficar ali por mais uns dias já nem seria tão ruim… Felizmente, 24h depois, tivemos alta e pude vir pra casa, iniciar finalmente meu puerpério e curtir minha família. Foram 16 dias longe de casa. Foram 7 dias sem ver Gabriel, que ficou doente neste meio tempo. Foram 13 dias pós parto pra, em casa, finalmente me dar conta de que tinha um bebê nos braços, pra me sentir realmente feliz e aliviada. Estar em casa com as duas crias é realmente mágico.
Durante o período de internamento, ecoou na minha cabeça uma frase repetida no mundo da humanização: “cada mulher tem o parto que precisa”. Senti muita raiva desta frase, chorei muito repetindo esta frase, sem entender o porquê de eu precisar passar por tudo aquilo. O que eu eu precisava “pagar” pra ter que passar por esta experiência? Quem já teve um filho na UTINEO sabe o quanto é difícil. É difícil passar por 2 ou 10 dias disso, é difícil passar por 2 ou 4 meses disso. É uma experiência sempre difícil, independente do tempo que dura. Não sei de onde tiramos forças pra continuar lutando por eles. Conheci muitos pais admiráveis que já estavam passando por isso há dias, semanas, meses… É uma força que não sei de onde vem, que surge de um, contagia o outro e retorna pra gente de novo. Parece que todos são filhos de todos e todos guardam todos os bebês, dividindo a companhia e tentando manter um clima ameno entre si nos intervalos das mamadas. Ainda assim, me senti muito injustiçada por passar por isso. Até que, já no alojamento conjunto, as coisas ficaram mais claras. Sim, tive o parto que precisava. No dia que induzimos, passei o dia em meio a uma irmandade de mulheres, no melhor clima possível, dentro da situação. Esta mesma irmandade que se solidarizou comigo no pós parto imediato, assim como nos dias que se seguiram, acompanhando passo a passo cada evolução de João. Meu trabalho de parto engrenou rápido, foram pouco mais de 2h desde a primeira contração. Meu expulsivo foi a jato. Tive uma micro laceração de 1º grau, que sequer precisou de pontos e sequer me incomodou em algum momento. Não tive sangramento excessivo no pós parto. Minha recuperação foi excelente, acima da média. Foi o parto que eu precisava. Não fosse tudo perfeito e rápido como foi, talvez não tivesse força física para estar presente na UTI desde a primeira mamada, talvez não tivesse resistido a rotina intensa dos dias que se seguiram, talvez não tivesse conseguido manter a presença e o aleitamento materno exclusivo, numa rotina extenuante de mamadas e ordenhas regulares, alternadas com descanso em locais nada confortáveis. Foi o parto que eu precisava para conseguir ser a mãe que João precisava naquele momento.
Equipe:
GO: Bruna Bittencourt
EO: Tanila Glaeser
Doula: Lia Sfoggia
Fotógrafa: Lorena Vinturini
Presenças: papai Amauri e vovô Carlos
Local: Maternidade Santamaria, Hospital Português, Salvador-BA
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Amamentação: chegamos aos 2 anos! (com relato em vídeo)

Dois anos. Chegamos!

Dois anos é o tempo mínimo de amamentação recomendado pelos principais órgãos de saúde e pediatria no mundo. E não é fácil chegar até aqui. Contamos com desinformação de todos os lados, com uma cultura que leva ao desmame a qualquer dificuldade e coloca em cheque a todo momento a capacidade das mães de nutrirem seus filhos.

É muito louco que meu corpo consiga produzir um alimento tão completo de forma tão natural e suficiente pra atender à demanda do meu filho. Muitas vezes me pego pensando nisso, fico maravilhada de conseguir esta proeza, tenho muito orgulho disso. Muito orgulho de mim. De nós, enquanto família, que dividimos nossas responsabilidades de modo que não fique insuportável pra nenhum de nós. De todos os grupos de apoio que faço parte, em especial do GVA, onde tenho o prazer de ajudar voluntariamente tantas mães a alcançarem esta vitória. Sim, arrasamos, queridas. Somos foda e falo isso sem nenhuma reserva, porque uma mãe que amamenta e vence a cultura do desmame merece ser apoiada, celebrada e divulgada!

Atribuo esta vitória a tanto fatores que talvez esqueça de citar algum:

  • Informação e apoio – antes e durante o puerpério, além de durante todo o período de amamentação, pra vencer os mitos que nos querem enfiar guela abaixo TO-DOS-OS-DI-AS e pra superar todas as dificuldades, que aparecem a todo momento;
  • Convicção e confiança (escolha informada e consciente) – sim, é preciso ter convicção, e muita, pra não sucumbir aos mitos e desinformações que muitas vezes pegam forte na nossa fragilidade;
  • Acompanhamento com profissionais amigos da amamentação – não sabemos de tudo, por isso muitas vezes sucumbimos ao discurso de autoridade, sobretudo dos profissionais médicos. Profissional amigo da amamentação é aquele que a apoia, sem necessariamente militar a favor. E ser amigo da amamentação deve ser atributo de muitos profissionais além do pediatra, este deveria ter OBRIGAÇÃO de ser amigo da amamentação, o que nem sempre acontece. Mas vou dar um exemplo… Nesta minha jornada, sofri um acidente e precisei de uma cirurgia ortopédica. Em nenhum momento fui imbuída a desmamar, já que há medicamentos, inclusive anestésicos, compatíveis com a amamentação. Mas ouço muitos relatos de mulheres proibidas de tomar simples analgésicos! Parece que não, mas encarar a amamentação com naturalidade e buscar tratamentos compatíveis, ao invés de mandar desmamar, é um grande apoio. Pra completar, além dos amigos e dos neutros (que simplesmente não entendem a respeito), tem também os INIMIGOS da amamentação. São inimigos da amamentação, por exemplo, o dentista que manda desmamar porque “LM dá cárie”, o GO que manda grávida de risco habitual desmamar, o psicólogo que manda desmamar pra a criança “não ficar muito apegada”…
  • Não usar bicos artificiais – sim, eu sei que tem bebês que mamam durante ANOS usando também bicos artificiais. Mas a realidade é que estes bebês são exceções, a grande maioria acaba desmamando precocemente (antes dos dois anos), independente de quando começaram a usar bicos. Além disso, muitos deles têm problemas no ganho de peso, o que se torna um ciclo vicioso de complementação e falta de estímulo do peito. Aqui Gabriel não chegou a usar nenhum tipo de bico, mas tenho a impressão que ele cairia na estatística do desmame, porque nos períodos em que usava copo de bico rígido (sem válvula) e canudo, que são meios um pouco menos perigosos que a mamadeira, a pega logo ficava ruim, ele começava a fazer movimento de sucção no meu peito e começava a morder durante as mamadas com muito mais frequência. Não, não era coincidência. Fiz o teste em diversos momentos. Hoje utilizamos copo de bico rígido muito excepcionalmente, pra não dizer nunca, e o canudo também somente em situações especiais.
  • Apoio materno (e/ou terapêutico) mútuo  – nesta jornada foi importante ter com quem dividir os pensamentos, desabafar sem medo de ouvir lição de moral ou de que as adversidades se devem à sua escolha pessoal. Desabafar sem precisar defender nossas escolhas, receber conselhos genuínos ou somente conforto. A verdade é que passamos por muitas adversidades neste processo e isso não é, necessariamente, “culpa” das nossas escolhas, todas as escolhas carregam em si ônus e bônus, em alguns momentos tudo o que a gente quer é receber palavras de conforto e acolhimento, mas só o tempo vai mostrar com quem realmente contar pra dividir estas questões. Algumas vezes somente um terapeuta vai ser capaz de nos ouvir e ajudar com isenção. Se este é o caminho, aceita-lo é importante.

Obrigada por todo mundo que de alguma forma nos apoiou nestes dois anos. Sigamos sem pressa que esse bebê tá crescendo rápido demais. Desacelera, tempo!! :)

Beijo!

Mari

Vídeo: Relato sobre a Introdução da Alimentação Complementar

Quando eu estava pra fazer a introdução de novos alimentos pra Gabriel, eu vi este vídeo, que me abriu a mente a respeito do significado da introdução de novos alimentos para o bebê. Porque, sim, o leite materno ou fórmula são os primeiros e continuam sendo os principais alimentos durante todo o primeiro ano. Após isso, naturalmente vai se tornando alimento complementar até que o desmame aconteça (naturalmente, nunca antes dos 2 anos). Isso varia muito de bebê pra bebê. Tem bebê que já começa comendo que nem gente grande, mas tem bebê que só engrena mais pra frente na aceitação de novos alimentos. E tudo bem! O nosso papel é oferecer uma alimentação variada e equilibrada, rica em alimentos frescos, naturais e com texturas e sabores diferentes. Comer é natural, não precisa forçar algo que a natureza já programou que ele faça…

Gravei este vídeo como uma conversa inicial sobre o assunto mesmo. Mais pra frente vou tentar gravar outro mais sistemático (ou escrever um texto mesmo), com dicas práticas pra este momento. Agora eu quero dividir a minha experiência. Espero que ajude! :)

Beijinhos!

Vídeo: Viajando de carro com o bebê (com dicas de atividades)

Resolvi perder a vergonha pra contar um pouquinho da minha experiência com viagens e passeios com o bebê na cadeirinha. E de bônus, sugestão de atividades pra entreter o bebê neste momento! Curtam e compartilhem. Se gostarem posso gravar mais!! :)

Beijos!

Sobre amamentação, GVA, histórias e comemorações

Legenda #pracegover Cena em close total do peito, com Gabriel recém nascido mamando na penumbra, vestindo um macacão listrado azul, luvas brancas listradas um corro com carinha de cachorro.

Penso que a amamentação não é um dever, mas deveria ser um direito de todas as mães. A amamentação plena, exclusiva, com apoio, suporte e compreensão. A amamentação sem medos, sem culpas, sem críticas. A amamentação da forma que o binômio mãe-bebê quiser, hoje tão difícil de ocorrer sem interferências.

A maternidade e a convivência com grupos de mães me fez perceber o quanto sou privilegiada. E como é confuso perceber isso. Claro, parece melindre reclamar de algo apesar dos próprios privilégios. Não reclamo de nenhum deles, porém, por muitas vezes caí e caio na armadilha de não me dar o direito de viver minhas dificuldades pelo simples fato de me achar petulante de reclamar de qualquer coisa, afinal, tenho tanto…

Sou privilegiada, as coisas pra mim foram relativamente fáceis. No olho do furacão, é claro que muitas vezes me senti sem chão, sem saída, sem perspectiva. Mas conversando com outras mulheres, debatendo nuns grupos muito bons que conheci, pude perceber o quão sortuda eu fui e isso me fez crescer como mãe, mulher e pessoa, me permitiu conseguir ter empatia e me colocar no lugar daquelas outras mulheres com mais facilidade. E agradeço muito por este crescimento pessoal que estes grupos me possibilitaram até aqui.

Legenda #pracegover Imagem vista de cima. Eu vestindo uma saia estampada de flores verdes e azuis, fundo amarelo e detalhes em rosa, e camiseta rosa levantada para Gabriel mamar no peito. Ele veste somente uma fralda de pano azul. Amauri está do meu lado esquerdo, vestindo bermuda bege e camisa branca de malha, me abraçando enquanto acaricia a cabeça de Gabriel com a outra mão. Estamos sentados num colchão no chão, cercados de dois rolinhos beges, à direita, uma almofada bege saindo por trás de Amauri, um cursinho de pano bege quadriculado, com um laço marrom no pescoço, mais uma almofada listrada de verde e mais uma almofada verde com bolinhas brancas.

Sou privilegiada desde que nasci, mas aqui quero focar no aspecto específico da maternidade e amamentação. Pra início de tudo, engravidei, embora sem planejar, num lar estruturado, num casamento relativamente sólido, de um homem íntegro e de caráter, disposto a trabalhar pela nossa solidez e felicidade enquanto família. Noutros tempos, poderia dizer que “soube escolher”, mas hoje tenho absoluta certeza de que tudo não passou de sorte. Aquela sorte que me colocou no lugar e na hora certa, que fez com que nosso relacionamento acontecesse, nossos ritmos casassem e afinidades aflorassem. Pura sorte. Privilégio.
Embora não sem algumas questões e medos a lidar, tive uma gravidez tranquila, um apoio imensurável do meu marido, a oportunidade de buscar informações sobre o parto e encontrar pessoas boas pelo caminho, que me prepararam não só pra o nascimento do meu filho, mas para o que poderia acontecer no puerpério e na maternidade. Empoderei-me. Consegui me deslocar e encontrar vaga para parir no local que escolhi. Atendi aos critérios e o TP se desenvolveu sem intercorrências. Pari sem dificuldade, num trabalho de parto rápido e com pouca dor. Não sofri violência obstétrica. Meu filho não saiu do meu lado nem por um minuto. Não tive nenhuma interferência negativa na amamentação, ninguém naquela instituição duvidou nem por um minuto que eu pudesse amamentar meu filho.
Meu filho nasceu e veio logo pro meu colo. Pegou o peito imediatamente, com uma pega linda, boquinha aberta, lábios viradinhos pra fora, sucção eficiente. Tudo perfeito. Ajeitávamos a pega em alguns momentos, marido de olho enquanto eu cochilava sentada muitas vezes, me ajudando, me guardando, corrigindo a pega, me garantindo conforto, água, comida, um livro, celular carregado e quaisquer outras coisas que necessitasse pra conseguir amamentar e ficar bem e relaxada. Pude conhecer realidades bastante diferentes. De mães que demoraram horas pra conhecer o filho recém nascido. De mães que são imediatamente desacreditadas, cujos filhos recebem uma chuquinha com leite artificial nas primeiras horas de vida, ao invés de elas receberem a orientação necessária pra saberem que podem amamentar. De mães que passam dias no hospital desacompanhadas, cortadas, violentadas, desassistidas. Mães de primeira viagem, ou de segunda, ou de terceira, cujo cuidado tão importante neste momento de fragilidade é negado e, no lugar de acolhimento, recebem uma sentença: você não vai dar conta de amamentar seu filho, você não vai conseguir, você não pode, seu leite não faz bem, seu leite não é suficiente, seu leite não sustenta. Essas mães chegam em casa frágeis e deparam-se com uma realidade pesada e exaustiva, de abandono, de sobrecarga, de falta de informação e acolhimento, de julgamento, de repreensão, de inadequação.
Sim, tive muita sorte. Tive sorte de, ainda nos primeiros dias do puerpério, poder me dar ao luxo de ter acesso à internet, a grupos de apoio e a informação de qualidade. Foi por ter acesso a tudo isso que deixei de lado a chupeta e a mamadeira, que havia comprado com a convicção de quem pensa que estará incólume aos riscos dos bicos artificiais. Sim, meu filho teve uma pega perfeita. Sim, meu filho mamou e ganhou peso lindamente. Sim, meu filho não me exigia muito além de colo, muito colo, e atenção. E peito. Eu nem sei se conseguiria seguir convicta se quaisquer destas variáveis tivessem saído do controle. Teria me rendido? Teria complementado de uma forma segura? Não sei. Fato é que meu filho queria leite e eu tinha leite. Meu filho queria colo e eu tinha disponibilidade de colo. Meu filho queria sugar pra se confortar e eu tinha disponibilidade de dar o peito. Meu filho aprendeu a sugar os dedos e eu fui respeitada na decisão de não oferecer a chupeta (“por enquanto”, eu dizia).
Confesso que encontrei dentro de mim uma força que nem sei de onde veio pra conseguir fazer e manter as escolhas que fiz. Não posso expressar o quanto me afligiu tentar não me abalar com os conselhos inoportunos (“seu filho mama muito, seu leite é fraco”, “dá a chupeta, que é mais fácil de tirar que o dedo”, “dá um engrossante, vai dormir a noite toda”, “dá água, tá muito calor”, “coloca pra dormir no quarto dele, vai viciar se ficar na sua cama”, “está chorando, é fome” e por aí afora). Nesta jornada, aprendi a me conectar com meu corpo e com meu filho de tal forma, que me aflige o risco que corri de sucumbir e seguir um caminho diferente. Eu não seria feliz seguindo um caminho diferente. Respeito quem segue, respeito quem faz outras escolhas, acredito, de verdade, que existe felicidade em escolhas diferentes. Mas eu não seria tão feliz.
É lindo, também, perceber que todo mundo pode feliz à sua forma, que cada escolha representa perdas e ganhos e que cada realidade apresenta um caminho diferente. E tudo bem. Há muito tempo, ouvi de uma amiga o seguinte: “hoje, sou feliz com a amamentação em 70% do tempo, mas estou farta em 30% dele”. Muitas vezes passei por momentos em que fui quase 100% infeliz com a amamentação. Felizmente estes momentos passaram, mas foram eles que me mostraram que a amamentação é algo real, orgânico, humano. Foram eles que possibilitaram uma mudança de perspectiva no relacionamento com o meu filho e na minha visão da própria amamentação. Foram eles que me ensinaram que somos dois indivíduos separados, interdependentes, mas que eventualmente serão independentes um dia. E foram estes momentos que me ensinaram que não existe maternidade plena e perfeita, mas que a maternidade é algo real e que se desenvolve dentro dos limites de respeito e crescimento mútuos. Foram estes momentos que me ensinaram que meu relacionamento com meu filho é real, é entre duas pessoas diferentes, cheias de erros e imperfeições. Somos, os dois, imperfeitos, mas estamos, os dois, construindo juntos um vínculo e uma relação real e sem idealizações. Estes momentos passam e voltam, são cíclicos como cíclica é a vida e a história. O importante é saber que eles passam e que, como diria o provérbio, “não há mal que sempre dure, nem tristeza que nunca se acabe”.

Legenda #pracegover
Estamos deitados num sofá bege, com uma manta predominantemente azul escuro com listras finas de diversas cores. Estou do lado esquerdo da foto, deitada com a cabeça sobre o braço do sofá, vestindo uma bermuda jeans escuro e uma blusa cinza levemente abaixada para expor a mama. Gabriel está mamando com um sorriso, no canto dos lábios, na minha mama esquerda, com a mão esquerda sobre a mama direita (por cima da roupa), ele veste somente uma fralda descartável e está com o tronco levemente elevado sobre sua perna direita, flexionada e apoiada no sofá.

Daqui a 9 dias, completaremos 18 meses de amamentação. Começaram (há muito) os questionamentos de “até quando”? E me dá certa aflição sequer saber esta resposta. Eu costumava ver a amamentação como algo difícil, excepcional, intangível e, depois de algum tempo, até reprovável. Sim, eu jamais pensei que chegaria tão longe. Jamais pensei que iria QUERER chegar tão longe. E hoje é algo tão natural pra mim que confesso achar estranho ter que ter a resposta a esta pergunta. Hoje eu digo “pelo menos até 2 anos, que é o que a OMS recomenda”, mas com a convicção de que não tenho convicção nesta resposta. Nestes meses, meu filho me mostrou que não tenho, nem posso ter, controle sobre tudo, pois ele é um indivíduo também, senhor de suas vontades e limitações. Jamais poderia negar pra ele o direito de ficar deitado enquanto não pudesse sentar. Jamais poderia negar pra ele o direito de engatinhar enquanto não pudesse levantar e andar. Não posso negar pra ele o direito de murmurar, apontar e gesticular enquanto não consegue falar. Não consigo negar pra ele o direito de mamar enquanto ele PRECISA mamar. Porque hoje sei que o leite materno é muito, muito além de alimento. Talvez haja um dia em que minhas limitações me obriguem a conduzir um desmame. Não posso prever. Não gostaria de prever. Não gosto, muito menos, que prevejam pra mim o fim desta história que é só nossa e que não precisa dizer respeito a ninguém.

Legenda #pracegover Montagem com fotos de 46 moderadoras do Grupo Virtual de Amamentação, no canto inferior direito, a sigla GVA escrita em letras rosas com bordas pretas.

Mas o intuito deste texto é comemorar. Há exatamente 1 ano, comecei a desenvolver um trabalho voluntário de apoio à amamentação, no Grupo Virtual de Amamentação – GVA. O GVA é um grupo de apoio online (no Facebook) que atualmente conta com mais de 150 mil membros, que todos os dias são acompanhados individualmente por uma de suas 44 moderadoras. Relutei em entrar na moderação. Não me sentia preparada. E não estava mesmo. De bagagem, somente alguns meses frequentando o grupo, tentando levar uma palavra de apoio e um pouco da minha experiência pra aquelas mães que buscavam ajuda. Veio o convite, rebati com um “mas minha experiência é parca”. Eu não sabia que isso não importava, que só importava a vontade de ajudar e estudar sobre amamentação pra difundir conhecimento, destruir mitos, espalhar apoio e sororidade.
A gente entra no GVA não por conhecimento técnico. Embora o grupo da moderação seja formado por médicas, enfermeiras, nutricionistas, biomédicas, odontólogas, fonoaudiólogas, farmacêuticas, pesquisadoras etc, o requisito para a entrada é somente ser mãe e ter disponibilidade de ajudar e estar afinado com os princípios do grupo. Somos notadas e convidadas a ajudar. Quando entramos na moderação, passamos por um período de imersão por muitos textos e material de estudo. O conteúdo reunido e produzido pelo grupo é enriquecedor. A produção de conteúdo é baseada em evidências científicas, assim como na imensa experiência do grupo no manejo da amamentação de milhares de mães. Depois deste período, passamos a moderar os tópicos, orientando sob a supervisão direta de uma moderadora mais experiente, assim como do grupo da moderação, onde discutimos casos e condutas. Este pequeno grupo de mulheres-mães estuda, conversa, está atento às evidências científicas, produz conteúdo e possui mais experiência em amamentação do que milhares de profissionais da saúde, que pouco estudam do assunto. O GVA quebra paradigmas, porque é um trabalho de mães para mães, com dedicação e responsabilidade, com interesse genuíno no assunto, com uma vivência das dificuldades da amamentação que vai muito além da vivência da grande maioria dos profissionais de saúde. Até porque amamentação não é doença, não deveria ser medicalizada, deveria ser natural e apenas fortalecida nos consultórios médicos. No GVA, sabemos que um complemento bem indicado salva vidas, mas que um mal indicado é capaz de arruinar a amamentação de alguém. E que na grande maioria das vezes, esta má indicação se dá porque não se há tempo de ouvir a mãe, a puérpera, a mulher. Porque não se há tempo de olhar o bebê, de se fazer um exame clínico decente, de se aventar as diversas possibilidades de baixo ganho de peso. Porque se ignora o que seria o comportamento normal de um recém nascido. Porque é mais fácil colocar a culpa na mãe, na mulher, em seu leite e na sua falta de capacidade de nutrir. Porque quando se descobrem os verdadeiros problemas, o bebê já está desmamado, a mãe já está insegura, por vezes destroçada, subjugada, diminuída. É institucional. É estrutural. É difícil de lutar contra.
Mas seguimos com nosso trabalho de formiguinha. Foi a ajuda de centenas de mulheres que tive o prazer de escutar, acolher, orientar e apoiar que me fizeram enxergar as diversas nuances dessa minha história. Estas muitas mulheres que não possuem o privilégio que eu tive e que me fazem grata e feliz por tê-lo tido e poder, agora, retribuir de alguma forma. É com as histórias destas mulheres que eu enriqueço a minha própria história e consigo ressignificar momentos e me fortalecer pra seguir tranquila o nosso caminho. Foi com o apoio das demais moderadoras que cresci e me livrei de muitas inseguranças. Foi com o confronto com suas realidades diferentes que também pude ressignificar o próprio trabalho do grupo e minha participação ativa nele. Foi com a oportunidade que me foi dada e quase recusada porque “não tinha tanta bagagem assim” que pude me reconstruir como mãe, como mulher e como pessoa. Eu não tenho palavras pra expressar minha gratidão e sinto que o pouco que faço jamais será suficiente pra agradecer por tudo o que tive a oportunidade de ter e viver durante toda a minha vida. Mas este pouco é o que tenho a contribuir e quero que possa se espalhar e ser suficiente pra que alguns de meus privilégios possam ser um pouquinho de cada uma daquelas mulheres e bebês.
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Grande beijo, Mari