A Bahia não elegeu Dilma

Dia após as eleições e, nos murais das redes sociais, segue firme a mesma ladainha que esteve presente nos últimos meses. A mesma, só que diferente.

Quatro anos atrás, eleitores do Sul/Sudeste gritaram aos quatro ventos mensagens preconceituosas, afirmando que os nordestinos, que haviam elegido Dilma, deveriam ser assassinados. Passaram quatros anos e poucas pessoas se deram conta do quando estas mensagens ecoam até hoje, em todos, da mesma forma, só que diferente.

Hoje, a polarização se dá entre o grupo que votou em Aécio e o grupo que votou em Dilma. Os eleitores de ambos se enxergam legitimados para destilar seu ódio em mensagens que não têm nada de novo, não têm nada de bom, não representam avanço algum. Para que entendam o que quero dizer, deixa eu te contar uma história:

Quando eu era criança, costumava passar períodos na casa da minha avó, em Belo Horizonte. Abro parêntese para dizer que o fato de citar o estado de um dos candidatos é mera coincidência. Fecha parêntese. Lá, costumava ouvir coisas do tipo: “ai, que linda, adoro esse sotaque, fala um pouquinho pra eu ouvir”, ou “ai, que pele branquinha, parece uma bonequinha de porcelana, nem parece ser baiana”. Estes comentários vinham sempre com doses de carinho, de conhecidos da minha avó. O que ninguém percebia era a dose de preconceito que lhes vinha embutida por baixo de tanta boa intenção.

Costumamos pensar que, ao fazer um comentário positivo de uma pessoa, comparando-a com um grupo em que está inserida ou mesmo a excluindo, por causa de determinada característica, daquele mesmo grupo, isto não se trata de preconceito. Todo mundo sabe, afinal, que preconceito é uma coisa feia e maldosa, aiaiai, não faço isso! Entretanto, como já disse, ressaltar aspectos pessoais e relaciona-las a um grupo é a mesma coisa de pre-conceitua-la de acordo com as características gerais do grupo, e isto sempre foi uma forma de rotular as pessoas em detrimento de suas particularidades. Vamos ver:

  • “Ele é negro, mas é liiiindo”;
  • “Ele é gay, mas é tão inteligente”;
  • “Adoro o seu cabelo ‘afro'”;
  • “Eu adoro os gays, eles são muito animados”;
  • “Você é tão esclarecido, não sei porque vota em Aécio/Dilma/________(complete com o candidato de sua preferência)”.
  • Veja alguns exemplos aqui, já falei sobre isso aqui.

A verdade é que hoje, mesmo após as eleições, muitas pessoas continuam com suas mensagens de preconceito, no mesmo tom que o fizeram durante a campanha, algumas com mais força, algumas mais contidas, mas todas com o mesmo ódio e sentimento de vingança. Estão todos com sede de vingança: os que foram ofendidos na última eleição, por poderem reiterar sua força e mostrar “quem é que manda” e os ofensores, por poderem reiterar seu ódio, pura e simplesmente.

Em pouco tempo, muitos cairão em si e, embora muito bem intencionados, dirão algo do tipo “eu não tenho preconceito, tenho/respeito até amigos que votam em Aécio/Dilma/________(complete com o candidato de sua preferência), mas”… Frases deste tipo são combatidas com tanta veemência o tempo todo, que parece que caminhamos para um grande grau de evolução da sociedade, mas o preconceito parece ser sempre mais forte que qualquer boa vontade.

Da mesma forma que sou baiana ALÉM de todas as características pessoais e culturais, não consigo interpretar de forma diferente o resultado das eleições. A Bahia não elegeu Dilma, mas 4.292.325 pessoas, cada qual com suas características e experiências de vida, votaram nela. O raciocínio se repete para todo e qualquer estado, a única verdade nisso tudo é que, entre pessoas ricas e pobres, inteligentes e burras, bonitas e feias, com sotaque recifense, maranhense ou paranaense, 51,64% dos brasileiros elegeram Dilma. E mesmo as mensagens revestidas de boas intenções nada mais fazem além de incitar o ódio e reiterar uma discussão infrutífera, que não leva a nada, que não muda nada, que não serve pra nada, pois não vai convencer ninguém e, ainda que convença, não muda o resultado das urnas.

Espero ter-me feito clara, pois acredito que nossas vidas devem continuar, vem aí o Natal e o Reveillon, boas oportunidades para recuperar as amizades desfeitas neste período (pra quem quer, pois já ouvi gente dizendo que não quer ser amigo de quem pensa diferente, mas não vou nem comentar sobre isso)…

Agora me digam: por que vocês continuam discutindo mesmo?

mari2

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