50 tons… de um conto de fadas moderno…

Nem acredito que estou escrevendo esta resenha, mas como tantas mulheres estão falando, achei que, sim, era assunto de mulherzinha… Quem não leu a trilogia “50 tons” e pretende ler, alerto de antemão: contém spoiler, ou seja, contém revelações sobre a obra, então não prossiga… Quem AMA Christian Grey, também aconselho não seguir em frente, pois minha opinião não irá agradar e eu não escrevo pra ofender ninguém, só pra dar o meu ponto de vista… Resolvi ler e resenhar porque minha mãe ganhou o primeiro livro, ganhei o segundo (pequei o terceiro emprestado) e o burburinho tem sido tão, tão grande, que eu acabei me rendendo…

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Bom, pra não começar criticando, tenho que dizer que a trilogia tem um mérito: ela é envolvente. Uma vez começada, fica quase impossível ter vida, porque ela envolve de uma maneira que só nos faz largar o livro quando acaba.

No mais, trata-se de uma versão moderna das historinhas de contos de fadas que líamos na infância: uma menina comum (plebéia), insegura e pouco popular que encontra um príncipe encantado rico, bonito e que a ama incondicionalmente. “Ah, mas tem sexo também”, dirão. Sim, tem cenas de sexo também, mas nem de longe correspondem às expectativas criadas: não, não existe nada além do sexo comum entre os casais comuns que conhecemos, acreditem. Certamente encontraremos mulheres ouriçadas com a “ousadia” do livro, mas isto é resultado de uma sociedade extremamente repressiva e pudica em que vivemos. Para as mulheres que se sentiram assim ao ler o livro, ouso dizer que isto é somente falta de experiência no assunto: vocês certamente vão fazer quase tudo o que Christian e Ana fazem entre quatro paredes, uma hora ou outra da vida…

Bom, vale aqui uma breve descrição dos personagens principais:

Christian Grey – Alto executivo de uma holding que ele mesmo criou, do nada, com um investimento inicial de apenas US$100 mil. Aos 27 anos, é um dos homens mais ricos e bem sucedidos dos Estados Unidos. Além disso, é muito bonito, educado e sensual, além de ser muito bom de cama. Fora isso, é dominador, controlador, superprotetor, obsessivo  e perdulário (mas, ok, ele é rico).

Anastacia Steele – recém formada em literatura, é uma menina de origens modestas, trabalha numa loja de materiais de construção. É uma menina bonita, mas sem graça, morena, magra, extremamente insegura e inexperiente em relações amorosas.

O primeiro livro, Cinquenta Tons de Cinza, é, sem dúvida, o menos pior dos três. Inicia-se com o encontro de Grey e Ana. Ele quer que ela assine um contrato aceitando ser sua submissa sexual, ela passa as quatrocentas e tantas páginas num eterno impasse para decidir se aceita ou não. Neste livro, eles se conhecem um pouco melhor, ela ao seu estilo de vida, ele ao dito “sexo baunilha”, ela perde a virgindade, ele a mima com presentes caros, como primeiras edições dos livros que ela gosta, computador, smartphone, carro, roupas de marca… Ao final do livro, ela decide que não quer ser sua submissa e o final, ao meu ver, foi até bastante plausível… O primeiro livro possui bastante cenas de sexo, algumas até bem excitantes, que deixam no ar a expectativa de um sexo mais apimentado, em “tons mais escuros”, que acreditei que seriam explorados na sequência da trilogia, mas…

Em Cinquenta Tons Mais Escuros, Ana e Grey se reencontram e ele abre mão de seu estilo de vida (dominador), pra manter um relacionamento “normal” com ela. Ela então é apresentada à sua família, passa a praticamente viver com Grey e a ganhar mais e mais presentes e luxos. Neste livro, quase não há mais cenas de sexo. Mesmo sendo bem frequente entre o casal, as cenas pulam das preliminares direto pra o afago pós-sexo dos protagonistas. O foco agora é no romance dos dois e o antagonista da história é  uma ex-submissa de Grey que supostamente surtou e os persegue em busca de ninguém sabe o quê. Mesmo com todo o aparato de segurança do rico Christian Grey, a menina consegue invadir sua casa não somente uma vez e, a despeito de ter consigo uma arma, nada faz. Toda esta trama só se presta a demonstrar o obsessivo e superprotetor que é Christian, nunca representou uma ameaça real. Também neste livro, Grey revela que comprou a empresa onde Ana trabalha e, quando seu chefe resolve assediá-la, Grey faz com que ele seja despedido e que Ana chegue ao cargo de Editora. Todo o livro se desenrola em mais ou menos um mês, e, ao fim deste período, Christian e Ana resolvem se casar…

O terceiro livro, Cinquenta Tons de Liberdade, consegue ser ainda mais enfadonho. Depois de casarem (2 meses após se conhecerem), Grey e Ana passam uma lua de mel de sonho pela Europa. Quase 90 páginas de lua de mel já revelam o quanto será maçante o resto da história. A despeito disso, o livro pede o tempo inteiro por uma reviravolta, porque as divagações repetitivas de Ana são tão cansativas… Neste, há ainda menos cenas de sexo, quase nenhuma completa como no primeiro livro… A autora tenta levantar a história com uma gravidez a priori não aceita por Grey. Convenhamos que a reação dele não foi de todo exagerada: que mulher em sã consciência “esquece” de tomar anticoncepcional por 4 meses?! Bom, depois disso, Ana heroicamente salva a cunhada de seu antigo chefe, inacreditavelmente conseguindo entrar num banco armada e sair de lá com US$5 milhões, depois encontrando o sequestrador e, mesmo espancada, conseguindo acertar um tiro em sua perna. Depois disso Grey aceita sua gravidez, começa a revelar seus segredos espontaneamente e todos são felizes para sempre.

Devo dizer que a autora foi muito inteligente ao construir a história. Afinal, quantas meninas inseguras não se identificam com Ana? Quantas meninas não queriam um homem lindo e rico a seus pés? A intenção em fisgar estas meninas se evidencia na superproteção de Grey, nas marcas caras e populares presentes nos livros (os objetos quase não são descritos por suas características, mas somente por suas marcas), no desejo em subir rapidamente na carreira, sem muito trabalho, no desejo em se satisfazer sexualmente e deixar as inibições de lado… Nós, mulheres, somos muito reprimidas, sobretudo sexualmente, e o livro acaba funcionando como válvula de escape, como um ponto máximo de perversão que nos é permitido… No entanto, não há nada de muito perturbador em termos de sexo em nenhum dos livros. Mesmo as cenas BDSM são leves, facilmente reproduzíveis por qualquer casal… Ao mesmo tempo, o livro também descreve a mulher dos sonhos dos homens: insegura, sempre disposta pra o sexo e obediente (sob a desculpa de que não quer fazer seu parceiro ficar de mal humor).

Justiça seja feita, não há nada de mal em sonhar com um príncipe encantado, mas é preciso ter em mente que a trilogia é um mundo de fantasia, ou seja, aquelas pessoas e aquelas situações NÃO EXISTEM! Digo isto porque tenho visto pessoas acreditando, de verdade, que aquilo pode se tornar realidade… Pra estas pessoas, permito-me passar um pouco do que aprendi com a minha (pouca) experiência:

  • Um relacionamento não se resume a sexo. No livro, todas as brigas, todas as necessidades, todas as diferenças são resolvidas com sexo. No mundo real, não dá pra passar por cima de suas frustrações, elas não acabam magicamente num orgasmo…
  • Nem sempre o homem está “a postos” a qualquer momento. Também são raros, e em raros momentos, aqueles que conseguem segurar uma ereção por duas, três relações seguidas, sem nenhum momento de descanso.
  • As mulheres têm variações hormonais durante o mês, de modo que nem sempre estão tão fogosas quando nossa heroína. Nós, mulheres, temos outras necessidades além do sexo e, não raro, não conseguimos manter a excitação logo depois de uma frustração, como acontece tantas vezes nos livros. Além disso, a mulher é um ser bastante sensível, ter tesão logo depois de ser espancada e estar toda dolorida é extremamente inverossímil.
  • Mulheres que ficam relembrando sempre as mesmas coisas, propondo sempre as mesmas brigas e, sobretudo, trazendo ex-relacionamentos à baila são extremamente cansativas (até pra outras mulheres e pra elas mesmas). Não me lembro de conhecer um homem, além do Sr. Grey, que não abomine isto.
  • Um sorriso do seu marido não cura todas as feridas. A convivência acaba evidenciando também os defeitos do outro e, nos momentos de briga, são eles que nós percebemos, não raro esquecemos das qualidades do outro nestes momentos… No livro, Christian joga seu charme para acalmar as brigas e conseguir o que quer. E consegue. No mundo real, a pouca importância que o homem dá aos nossos questionamentos acaba virando frustração, o que é um veneno pra qualquer relacionamento.
  • Uma relação não cura um trauma de infância. Muito menos em poucas semanas. Os psicólogos e psiquiatras que me corrijam, mas um trauma com raízes não profundas como o do protagonista da série dificilmente se resolveria com algumas poucas semanas de convivência e, diga-se de passagem, com uma menina tão problemática quanto Ana.

Eu deveria MESMO ter anotado todos os absurdos que eu achei ao longo da leitura, mas aí este post é que ficaria enfadonho, não é mesmo?! Desculpe-me quem AMA a série, mas isto aqui exposto não passa da minha opinião, por isso, continue amando os livros, a beleza da vida é que somos e pensamos diferente, não é mesmo?

Mesmo assim, queria saber a opinião de quem leu! Deixem nos comentários…

Beijos!

mari

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11 comentários sobre “50 tons… de um conto de fadas moderno…

  1. Mari ,gostei de sua interpretação mas acho que a sintese que se possa fazer apesar de tudo que acontece nos livros é que o AMOR consegue transformar as pessoas.
    Bjosss

    Responder
    • Sim, sim, você está certa, mas meu movimento literário preferido sempre foi o realismo, acho que não sou muito romântica… rssss O grande problema desse livro é que as pessoas não compreendem que, por mais bonita que seja a moral da história, aquilo não é realidade e esta alienação é muito arriscada…
      beijosss!

      Responder
  2. Mari, Paty tinha me dito essa semana que você estava lendo o livro, que coincidência!! Eu sou APX por Christian Grey pq além de lindo, ele é um homem decidido (diferente da maioria dos homens reais)!
    obs: Sabia que o livro foi inspirado na Saga Crepusculo???
    bju

    Responder
    • Oi Mari, dá pra ver mesmo as semelhanças, mas eu não gosto também da saga Crepúsculo… Sobre Grey, não acho que seja decidido, ele é controlador, o que é beeeem diferente… Eu não saberia conviver com um homem controlando a minha vida…
      =)

      Responder
  3. mari querida! eu não li os livros, sou meio contra leituras de modinha, mas pelo que você escreveu aqui e muito bem por sinal, eu não lerei! hahahha saudades amiga!vamos marcar uma comidinha japonesa? fiquei sabendo que você está expert!! beijo!

    Responder
    • Amiguinha, que bom te ver por aqui!
      Não curto muito esses best sellers também, mas o falatório acabou me convencendo… deu no que deu…
      Tá viajando? Volta quando pra a gente marcar nosso sushi? Vou falar com Pati, mas todo mundo vai ter que meter a mão na massa (ou no arroz)!!
      Agora, livros pra ler na praia… difícil isso, mas lembro de um que li numas férias, que era ótimo pra quem tem muito tempo livre pra ficar matutando… Amo o Dia do Curinga, de Jostein Gaarder. É grandinho, dá pra se deliciar por todo o período de férias…
      bjssss

      Responder

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