Assunto de mulherzinha

Eis que eu já tinha o próximo post pronto na cabeça, tema: comportamento (que eu adoro), até que @mari_santa me fez um desafio: um post sobre as eleições. Me perguntava: “Mas o que escrever sobre eleições num blog de moda e correlatos? Como escrever sem parecer demasiadamente técnica ou excessivamente clichê? Como transformar tudo isso em “assunto de mulherzinha”? Naquele momento, me dei conta do quão machista que eram aqueles pensamentos. Logo eu, que vivo enfurnada em livros de sociologia, lendo blogs feministas, caí na mesma balela do patriarcado e estava, de algum modo, menosprezando a inteligência das possíveis leitoras de um blog de moda. Reproduzi o mesmo pensamento machista que mantém muitas mulheres longe da política. E decidi: política é “assunto de mulherzinha”, sim.

Não ousarei, aqui, escrever sobre feminismo, assunto que mesmo me interessando muito, não tenho propriedade para falar. Deixo a recomendação de um blog que gosto muito o Escreva Lola, escreva, onde a Lola Aronovich e suas convidadas tratam o assunto feminismo com propriedade e leveza. Mas falarei do voto feminino.

File:We Can Do It!.jpg

Numa rápida pesquisa para escrever este post, descobri que apesar de as mulheres representarem mais de 52% do eleitorado brasileiro, a representatividade das mulheres na política é bem menor que isso. Tanto, que se fez necessária a criação de uma lei (9.504/97, posteriormente modificada pela lei 12.034/09) que estabelece que a representação de um dos sexos não pode ser menor que 30% (em outras palavras, foram criadas cotas de gênero, para evitar a hegemonia masculina). E qual a importância dessa representação? A discussão de questões que são parte do universo feminino, tais como, a violência contra mulher, aborto, sexismo, homofobia, precisa da participação de quem de fato as vive, além das questões normais do executivo e legislativo que afetam a homens e mulheres da mesma maneira.

As eleições de 2012 ainda tem uma importância histórica na participação das mulheres na política. Este ano, o sufrágio feminino (direito de voto da mulher), completa 80 anos. Essa conquista foi precedida de muitas lutas e de alguns precedentes, como foi o caso de Celina Guimarães Viana, no Rio Grande do Norte, 1927 e de Mietta Santiago, em Minas, 1928. Essa última causou espanto e admiração no poeta Carlos Drummond de Andrade, que o mesmo lhe dedicou um poema:

“Mietta Santiago
loura poeta bacharel
Conquista, por sentença de Juiz,
direito de votar e ser votada
para vereador, deputado, senador,
e até Presidente da República,
Mulher votando?
Mulher, quem sabe, Chefe da Nação?
O escândalo abafa a Mantiqueira,
faz tremerem os trilhos da Central
e acende no Bairro dos Funcionários,
melhor: na cidade inteira funcionária,
a suspeita de que Minas endoidece,
já endoideceu: o mundo acaba”.

E depois de 32, começou o “fim do mundo” e as mulheres puderam ser eleitas a cargos do executivo de do legislativo até chegar à fatídica eleição da nossa querida Presidenta Dilma Rousseff, em 2010 (o que parecia soar impossível a Drummond, em 28). Mesmo depois de tanta luta(é, não deu pra fugir de alguns clichês. Desculpa!) ainda há no imaginário coletivo de que mulher “não gosta”, “não foi feita” ou “não se interessa” por política e muitas de nós, acabamos por tomar tais afirmações como verdadeiras e aceitamos a posição de “inaptas” para a política. Precisamos, urgentemente, dizer NÃO a essas ” verdades”.

Luiza Erundina afirma que o suposto desinteresse feminino é pretexto e resultado de uma cultura machista. “A mulher é desencorajada a liderar e se sente incapaz. Até usa, às vezes, o argumento de que o poder corrompe. Já os homens adoram o poder. E ter uma mulher na disputa política significa ter um homem a menos”, diz a deputada.

Vale lembrar que em muitos países, o voto feminino ainda é uma utopia. Então, cabe a nós, fazermos valer nosso direito, deixar a Vogues e os batons um pouco de lado e irmos às urnas conscientes. Fechado?

Fonte da citação

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UPDATE:

Não tinha pessoa melhor pra falar desse assunto (thanks, Livinha), que considero essencial discutir no dia de hoje! Não poderíamos deixar passar em branco esta data tão importante pra a nossa democracia, você também não pode! Se ainda está indecisa, aproveite o sábado pra estudar melhor as propostas dos candidatos da sua cidade e escolher a melhor opção. Esqueça aqueles clichês:

  • “Vou votar em quem já está na frente, pra não perder o meu voto” – o voto é a melhor forma de expressar a sua opinião, então votar num candidato em que você não acredita é que faz você perder o seu voto e eleger uma pessoa que não vai fazer jus aos seus interesses;
  • “Não vou votar em ninguém, não tem nenhum candidato que mereça meu voto” – ainda que você não vote, alguém vai se eleito, então tente analisar as propostas, tenho certeza que algum dos candidatos oferece o que você e sua cidade precisam, basta ver com olhos livre de preconceito;
  • “Vou votar em branco ou nulo pra anular a eleição ” ou “vou votar branco ou nulo, vai ser um voto de protesto” – protestar anulando a sua opinião e o seu direito? Onde já se viu? Além disso, esqueça essa história que você recebe TODO ANO por e-mail: mais de 50% dos votos nulos não anulam a eleição!
  • “Não gosto de política, vou votar em quem meu pai (meu marido, minha amiga, meu chefe etc) mandar” – sério?! discutir política é importante, desde que seja uma discussão saudável e não uma disputa de ideais, então abra sua mente pra acompanhar, discutir e se interessar por política, porque nosso futuro depende da nossa atitude presente…

Finalmente, quero desejar um excelente final de semana, com um espírito diferente: este será o final de semana pra exercer seu direito e ajudar a tornar a sua cidade um lugar melhor pra se viver. Repetindo minha amiga Lívia, vamos votar conscientes amanhã. Fechado?

Abraço!

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2 comentários sobre “Assunto de mulherzinha

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