Exército sem rosto

Trendy, maxi, sneakers, snob, must have, mullet, mary jane… São incontáveis as palavras que entraram no nosso vocabulário nos últimos 3 anos. São incontáveis também a quantidade de peças que viraram “objetos de desejo” e tudo isso está associado ao boom dos blogs de moda. De repente, viramos todas especialistas em dizer o que deve ser usado, o que é in ou out. De repente, viramos parte de um exército sem rosto com as mesmas cores de batom, com os mesmos sapatos, os mesmos modelos de saias. Estamos agora, impecavelmente, bem vestidas e massificadas.

Perdemos a identidade. Em algum lugar, nesse universo das novas informações do “bom gosto”, esquecemos o nosso rosto. Esquecemos qual a função da roupa. A roupa fala. Fala de nós, dos nossos gostos, das nossas vivências, do nosso passado. É a roupa que nos apresenta ao mundo, que manda o nosso primeiro recado, dizendo quem somos, de onde e para que viemos. É através dela que, muitas vezes, identificamos religiões , profissões, crenças, grupos. O que vestimos está imbuído de significações e de uns tempos para cá isso tem sido esquecido. Perdemos a identidade, em nome de um bom gosto, que eu realmente não sei o que significa. Seria o bom gosto vestir aquilo que não gostamos, não nos diz respeito ou, o que é pior, que não nos cai bem? Seria o bom gosto fazer parte de um exército de iguais, sem rosto e sem personalidade?

E nesse universo cheio de especialistas ditadoras do que vestir e do que não vestir, parece que perdemos a coragem de nos assumirmos. Com tanta gente para nos dizer o que devemos vestir, perdemos a coragem de tirar do armário aquele vestido querido, tão lindo, porque ele é  last season, ou quem sabe de usar aquele chapéu, que um dia foi nossa marca registrada, porque alguém disse que chapéus estão fora de moda. E tudo isso em nome do quê? De nos inserirmos num grupo? Atender a quais interesses?

É cada vez mais comum encontrar na internet denúncias de post pagos disfarçados de “conselho de amiga” nos blogs de moda. Nesse sentido, o polêmico Blogueira Shame, ganha destaque. A blogueira, Priscilla Rezende, especializou-se em denunciar certas “coincidências” e posts fruto do “inconsciente coletivo” e acabou tornando-se uma espécie de paladina da honestidade nos blogs de moda. Obviamente, a questão da massificação do visual vai muito além das questões comerciais, é uma questão antropológica. Os visuais se repetem, ao redor do mundo, e estamos cada dia mais iguais. Entretanto, é um aspecto que não pode ser desconsiderado. Devemos prestar atenção para que não sejamos manipuladas por posts publicitários e “dicas de amiga” patrocinadas pelas grandes empresas. O “melhor produto dos últimos tempos da última semana” pode ser uma cilada.

Diante disso, acho que passou da hora de repensar valores e colocar para fora toda a cafonice que existe dentro de nós. Tirar do armário as peças que nos fazem felizes, não colocar para dentro dele as que alguém disse que é bacana. Misturar bola com listras com cores. Passou da hora de ser ao invés de imitar. “Tomar banho de chapéu.” Acabar com os simulacros e ser feliz. “Faça o que tu queres, pois é tudo da Lei.”

Fala, Raul:

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6 comentários sobre “Exército sem rosto

  1. Pingback: O poder do tempo… « marisanta • Um blog de mulherzinha!

  2. Se falar é dificil, escrever então! É isso aí Mari, essa é a minha preocupação com a busca de estilo próprio. Normalmente as pessoas me perguntam “qual é o meu estilo?” eu fico entre a cruz e a espada pq não é tão simples assim! Não tem como idenficar um estilo de alguém somente pela roupa que ela usa. É a mesma coisa de listar peças básicas pq o que básico pra uma pessoa pode não ser pra outra. Talvez por essa razão as pessoas ficam todas com a mesma “cara”!!!

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